Pandemia de COVID-19 intensifica crise dos meios de Portugal e Espanha


Este painel fez parte do 13º Colóquio Ibero-Americano de Jornalismo Digital, realizado totalmente online em 25 de julho de 2020. Veja este e outros painéis desse dia aqui.

Como na América Latina, a pandemia de COVID-19 teve um impacto forte nos meios de comunicação de Portugal e Espanha, com redução drástica da publicidade, cortes de pessoal e reduções de salário. O cenário é de incerteza, segundo os participantes do painel “Periodismo Digital en España y Portugal,” durante o 13º Colóquio Iberoamericano de Jornalismo Digital. Assista aqui ao vídeo da sessão.

A jornalista portuguesa Catarina Carvalho era editora executiva do Diário de Notícias, um dos principais jornais de Portugal, mas deixou o veículo em junho após a administração propor um corte de 40% nos salários da equipe.

Segundo ela, o governo português ofereceu uma compensação aos trabalhadores que sofreram cortes salariais, mas o benefício termina em outubro e o cenário é incerto.

“O que já era ruim ficou ainda pior com a pandemia,” disse Carvalho. “ Na melhor das hipóteses, haverá demissões em massa [quando a subvenção acabar].”

A jornalista trabalha num projeto de jornalismo independente em Portugal, mas no país fontes de financiamento para redações nativas digitais são escassas

“Em Portugal não há fundos de investimento, as pessoas [empreendedores] não sabem como começar, como fazer algo novo. Creio que nos próximos anos isso vai acontecer aqui, [o surgimento] de start-ups jornalísticas,” disse Carvalho.

Catarina Carvalho, Gumersindo Lafuente, Pilar Velasco e Virginia Alonso
Catarina Carvalho, Gumersindo Lafuente, Pilar Velasco e Virginia Alonso

Na Espanha, a crise financeira global de 2008 mudou profundamente o cenário midiático. Segundo Virginia Alonso, diretora de Público.es, um jornal digital, a pandemia acelera processos já em andamento no jornalismo, como a maior digitalização e redução das edições impressas.

“Acho que [essa crise] deixará alguns meios de comunicação ao longo do caminho, possivelmente menores que os maiores. Na Espanha, como você sabe nos últimos anos, vários pequenos meios de comunicação nasceram, especialmente na raiz da crise anterior. Alguns se tornaram médio, mas muitos deles permaneceram pequenos. Agora, acho que esses meios terão sérias dificuldades,” disse Alonso.

Na raiz do problema está a queda das receitas publicitárias, agravada pela desaceleração econômica que se vê na maior parte dos países. A Cadena SER, a rede de rádio mais importante da Espanha, registrou recorde de audiência digital em fevereiro, um pouco antes do decreto de situação de emergência no país. Por outro lado, a publicidade baixou “a um dos piores dados de receita de publicidade nos últimos anos. Quase nos níveis de crise de 2008,” disse Pilar Velasco, jornalista da Cadena SER.

“Penso que veremos as consequências a longo prazo, se isso for pior, porque neste momento estamos nos olhos do furacão e é muito difícil analisar a partir desse olho do furacão as consequências que essa situação terá”, disse Velasco.

O painel discutiu também a situação de assédio a jornalistas nas redes sociais, especialmente mulheres, que são vítimas de ataques e hostilizadas até mesmo na rua.

“Isso é bastante preocupante para mim porque gera um clima de opinião favorável ou desfavorável a certas pessoas e muitas vezes incentivado até por políticos que são líderes de partidos,” disse Alonso, que também presidente da Plataforma en Defensa de Libertad de Información.

Alonso disse ainda que esta situação vem criando casos de autocensura entre jornalistas, que, para se protegerem, evitam reportar sobre temas que podem gerar reações extremadas.

“É uma linha muito tênue e perigosa. No caso das mulheres, o que acontece é que muitas excluem suas contas nas redes sociais ou passam a interagir muito menos, ou seja, é uma voz a menos de uma mulher,” alertou Alonso.

O painel foi moderado por Gumersindo Lafuente, director adjunto de eldiario.es.